Crianças difíceis no consultório odontológico

Essa semana recebi um e-mail de uma leitora do blog pedindo ajuda, pois o filho de 4 anos está com cáries e não deixa nenhum dentista atender.  “Já o levei ao dentista nada menos que 7 vezes e nunca conseguiram fazer a restauração, pois ele fica apavorado, se debate, chora até vomitar.” Assim como o filho dessa leitora, muitas crianças não cooperam na hora do atendimento. E aí?

 

O que diferencia um odontopediatra de um clínico geral, além do entendimento minucioso do desenvolvimento físico e psicológico da criança,  é o conhecimento e a experiência de usar técnicas de controle do comportamento infantil nas situações mais diversas – e adversas!

Algumas crianças – por razões variadas – não têm um comportamento cooperativo durante o tratamento. Seja por medo, rebeldia ou algum distúrbio comportamental, elas se recusam ao atendimento a todo custo.

Em alguns casos, é preciso que o profissional lance mão de algumas técnicas para controlar essas crianças e garantir o atendimento. Para não me estender demais, hoje falarei apenas de uma delas: a contenção física.

O que é a contenção física?

É o que o próprio nome está dizendo: conter a criança com o objetivo de reduzir ou eliminar movimentos inesperados do paciente, protegendo-o de um imprevisto, além de facilitar o desenvolvimento de um trabalho de qualidade.

Tem criança que se debate na cadeira, chuta, balança a cabeça no intuito de se esquivar do profissional, segura ou bate na mão do dentista. Tudo isso gera um risco enorme dela se ferir durante o atendimento. Um movimento abrupto e inesperado pode fazer com que a broca da alta rotação (motorzinho) faça uma perfuração indesejada, seja no dente ou na mucosa, ou que a agulha da anestesia machuque ou até mesmo quebre durante o procedimento. Por isso é muito importante – e necessário – imobilizar a criança para que o atendimento possa ser realizado de forma adequada.

Muitos pais se assustam quando o dentista toma a decisão de conter a criança. Mas atenção: o dentista só pode usar de tais técnicas com aviso prévio e consentimento por escrito dos pais ou responsáveis.

O que deve ficar bem claro é que o uso da técnica tem uma função lógica, e que não está sendo usada como punição ao comportamento da criança.

E como segurar a criança durante o atendimento?

Existem várias formas. Muitas vezes, os pais serão solicitados a ajudarem nesse processo. Seguindo as orientações do dentista, e com a ajuda da auxiliar, eles devem segurar a criança na cadeira de modo a impedirem movimentos bruscos e repentinos. Para isso, devem imobilizar braços, pernas e a cabeça da criança.

Existem casos em que as crianças têm uma força surpreendente, o que dificulta a imobilização. Em situações assim, podem ser utilizados alguns recursos de imobilização, como lençóis, cintas, faixas ou pacotes pediátricos. Lembrem-se, papais e mamães: a criança não está sendo punida! Estamos garantindo um atendimento de qualidade e com segurança!

Uma técnica bastante polêmica, geralmente utilizada como último recurso, é a da “mão sobre a boca” (H.O.M. – Hand Over Mouth), que consiste em colocar a mão sobre a boca da criança com o intuito de abafar o som dos gritos e fazer com que ela ouça o profissional. Estabelecida a comunicação com a criança e cessados os gritos, a mão é retirada. Como disse, é utilizada em último caso em crianças histéricas, com acesso de raiva ou muito agressivas.

Mas essas técnicas não vão traumatizar a criança frente ao tratamento odontológico?

NÃO! Foi constatado – tanto por dentistas quanto por psicólogos e neurocientistas – que não há qualquer inconveniente no uso da contenção física quanto a eventual dano psicológico, com consequente reação negativa em um atendimento futuro. Pelo contrário! Na grande maioria das vezes, o paciente passa a aceitar cada vez mais o atendimento odontológico.

Volto a dizer: em momento algum, a criança está sendo punida. As metas de manejo do comportamento são promover a saúde bucal do paciente e ajudar a desenvolver uma atitude positiva da criança, encorajando a educação, suavizando o medo e a ansiedade e, acima de tudo, construindo uma relação de confiança com o dentista!

 

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2 trackbacks

OdontofoGUIA! #12 | Medo de Dentista
10 de agosto de 2011 às 9:35
Prêmio Top Perolas #8 | PEROLAS DA ODONTOLOGIA
23 de agosto de 2011 às 21:50

20 comments

  1. Muito importante frisar que a contenção física não é uma punição por mau comportamento, e sim uma forma de evitar que a criança se machuque… assim como a mão sobre a boca é usada para que a criança escute o odontopediatra e não (só) pra que ela fique quieta! Interessante como algo que parece “truculento” quando devidamente embasado pode deixar de ser tabu.
    Parabéns, Tio! Excelente tema, excelente abordagem! :D

  2. Vc bem sabe que a semana passada eu enfrentei uma dessas crianças! A menina só “deitou” na cadeira com a mãe por baixo e a segurando com força e haja dedo para ser mordido!
    Eu a encaminhei a um pediatra da cidade e expliquei à mãe que ele sendo especialista teria técnicas melhores a usar, além de poder sedar a criança (coisa que eu, mais endodontista do que qq outra coisa, não faço).
    A mãe surtou mais que a criança porque eu atendo a sobrinha* e não queria atender a filha. Porque EU devia sedar a menina então se só assim para atendê-la.
    Foi difícil entender que um odontopediatra estuda técnicas mais apropriadas para o controle de uma criança e assim evitar traumas e medos no futuro.
    Ótimo post tio e reiintero: já ganhou o top pérolas :D
    Bjo
    Gigi

    PS: a ‘sobrinha’ citada é um anjo de candura, já fiz até endo nela sem choro, ela sempre traz uma boneca ou um urso para acompanhá-la na consulta, que senta junto na cadeira e tb recebe atendimento odontológico :P

    • É isso aí, Gigi!
      Já aconteceu de eu ficar uma consulta inteira tentando e a paciente não abrir a boca. Hoje, essa mesma paciente faz questão de ir ao consultório e, quando o dentinho de leite não cai sozinho, só eu estou autorizado a tirá-lo! Nem o papai ou a mamãe podem! Satisfação total! :D
      Teve criança que precisei conter em uma sessão pra fazer selante. Na outra, que tinha que anestesiar, virou um anjo!
      A dica é: sempre informar os pais!

      E, se você tá dizendo quanto ao Top Pérolas: Rumo ao TRI!!! rsrsrs
      Obrigado pelo carinho de sempre!

  3. Muito legal! A Odontopediatra da clínica usa uma técnica onde o pai ou a mãe deita por cima da criança, usando o peso do corpo para imobilizar a criança! Só não vi esta técnica sendo aplicada com pais muito obesos! hehe

  4. A maioria dos odontopediatras não tem preparação para realizar tais procedimentos, uma vez que não tem “tino” para o trato com crianças e os equipamentos são completamente arcaicos para que se realize tais procedimentos….levando facilmente a atitudes muitas vezes bruscas e estúpidas na maioria das vzs. Concordo que a criança enxerga o aqui agora, nào tem consciência que vai ser bom pra ela, no futuro, tratar os dentes de leite mas atitudes bruscas acredito que só piorem as coisas pois, tenho dois filhos pequenos e sei bem como estes procedimentos tentam ser usados…NUNCA, JAMAIS, em Hipotese nenhuma NINGUEM colocaria a mao na boca de um dos meus filhos, nem eu o faço, isto é arcaico demais….existem técnicas psicológicas que um bom profissional sabe de existencia delas e se souber conversar e usa-las faz bom uso. Me desculpe mas não concordo com tais procedimentos e nunca deixaria meu filho passar por isto,…vc gostaria de ser amarrado numa cadeira quando fosse no medico e simplesmente naum soubesse o que iriam fazer com vc? fica a pergunta

    • Andreia, bom dia!
      Obrigado pela visita e por compartilhar seu ponto de vista!

      Como frisei bastante no post, a técnica de contenção física só deve ser realizada depois do esclarecimento e do consentimento POR ESCRITO dos pais. Se depois de informados dos riscos e benefícios os pais ou responsáveis não concordarem, o dentista não poderá executar tal técnica. Falarei de outras técnicas de adaptação do comportamento do paciente odontopediátrico em uma breve oportunidade.

      O que quero que fique claro: a contenção não é usada para punir ou traumatizar a criança. Tanto é que é recomendada desde a graduação, com o aval da Associação Brasileira do Odontopediatria. Segundo o próprio Manual de Referências Para Procedimentos Clínicos da Associação, a contenção tem como objetivos:
      1. reduzir ou eliminar movimento intempestivo;
      2. proteger o paciente, a equipe de funcionários, o dentista, ou os pais, de qualquer ferimento;
      3. facilitar a realização do tratamento odontológico de qualidade.

      Além disso, a contenção física NÃO DEVE SER A PRIMEIRA ESCOLHA do profissional, mas uma das opções. Segundo a ABOdontopediatria, a decisão para usar a estabilização protetora deve levar em consideração:
      1. modalidades alternativas da orientação do comportamento;
      2. necessidades odontológicas do paciente;
      3. o efeito na qualidade do tratamento odontológico;
      4. o desenvolvimento emocional do paciente;
      5. o exame do paciente.

      Se não houver meios de utilizar uma técnica alternativa: será que realmente é mais vantajoso deixar a criança com cárie e dor ou com um traumatismo na boca porque a mesma não deixa o profissional tratar ou imobilizá-la para garantir um atendimento de qualidade e a solução do problema?

      Mais uma vez, obrigado pela visita e seja sempre bem vinda!

      REFERÊNCIA: Manual de referência para procedimentos clínicos em
      Odontopediatria/Associação Brasileira de Odontopediatria, 2009. 432 p. Ed. Santos

    • Discordo que “a maioria dos odontopediatras não tem preparação para realizar tais procedimentos, uma vez que não tem ‘tino’ para o trato com crianças”. A maioria dos DENTISTAS não tem mesmo… eu não tenho. Mas os odontopediatras, que tem treinamento específico na área, estão aí pra isso, se for necessário e autorizado pelos pais.

  5. bom dia a minha filha tem 2 anos e meio e esta fazendo tratamento de canal e restauraçoes mais ela chora muito e se debate de mais a ondopediatra grita com ela e coloca a mao sobre a boca e eu nao estou concordando com isso estou até pensando em procurar um outro proficional será q todos vao fazer a mesma coisa que essa esta fazendo isso é um procedimento normal? por fvor me ajude obrigada roseli

    • Rose, eu tenho uma filha de 4 anos, a primeira vez q ela foi na dentista pediatra e ela pediu para q nós segurasse firma ela. Minha filha chorou muito, berrou se esperneou, ficou tão nervosa q as costas dela ficou toda manchada. Hoje eu me arrependo de ter levado apesar q a cárie dela estava bem funda, pq hoje ela não deixa ninguém nem chegar perto dos dentes dela. Mas mesmo assim estou levando ela em outro odonto pediatra de maior confiança, e ainda está difícil. Conversando com a doutora conclui que teremos q fazer a contenção para tratar de uma vêz por todas os dentinhos dela, eu perguntei pra doutora como ela sabe se ta doendo ou não, ela disse q quando doi o choro é mais agudo.
      Então uma coisa eu te falo, perceba bem, se sua filha mesmo chorando terá momentos q ela terá choros mais agudos ou mais intensos, na dúvida procure outro profissional de maior confiança.

  6. Andrea concordo plenamenteeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee… Eu tenho trauma pq fizeram isso comigo.,. Dentista tem q ser visto como um amigo e não uma ameça, ou vc acredita que essa criança voltaria sorrindo para esse consultório novamente?
    Fiz cirurgia de freio aos 5 anos de idade com uma Odontopediatra e quando ela falou q eu tomaria sorvete todos os dias eu aceitei na hora que a mesma fizesse a cirurgia em mim, ou seja, profissional q trabalhou o meu lado psicológico.
    Termo por escrito??? Só quem não “pariu” e tem amor por uma criança p deixar essa forma arcaica de ser concretizada… Absurdoooooooooooooooooooooo e boba até agora com tudo q li agora… A pessoa estuda 5 anos p fazer isso??? Adulto responde a uma ação e uma criança e PRESA??? Daqui a pouco vão dizer q é só amarrar uma cordinha no dente e bater a porta p arrancar… Valha-me Deus!!! Dra. Glênia vc foi a melhor dentista q já apareceu p mim!!!

  7. HOJE EU PASSEI MOMENTOS DOLOROZOS COM MEU FILHO DE 6 ANINHOS NA CADEIRA DO DENTISTA.MEU FILHO ESTÁ COM CARIES E NÃO CONSEGUE SE ALIMENTAR DIREITO COM DORES DE DENTE.ELE CHORAVA ,ESPERNEAVA E A DENTISTA PEDIATRA SEM PREPARAÇÃO ALGUMA.TENTAMOS SEGURA-LO , MAS TENHO Q CONCORDAR Q É MUITO DIFÍCIL PRA MÃE VER SEU FILHO SOFRENDO E PEDINDO SOCORRO.ACHO Q TERIAM QUE TER UM CALMANTE EM TODOS OS DENTISTAS PEDIATRAS.NÃO CONCORDO COM ESSE MÉTODO DE IMOBILIZAÇÃO.DENTISTAS SE COLOQUEM POR ALGUM MOMENTO NO LUGAR DA CRIANÇA E DE SEUS PAIS.COM CERTEZA IRÃO MUDAR DE ATITUDES.TENTEM OUTRO MÉTODO , ESTE É PRE-HISTÓRICO.

  8. olá gostaria de fazer meu comentário por achar interessante o assunto … eu trabalho em um consultório odontológico a 7 anos e não concordo com essa técnica … (meu ponto de vista) , não acho legal fazer isso com as crianças q precisam passar por algum procedimento , acho sim q isso pode acarretar um trauma ou bloqueio psicológico …onde eu trabalho a Dra. trabalha com a técnica da paciência e confiança … ela tenta ao máximo convencer a criança d q ela precisa
    arrumar os dentinhos , na maioria das vezes sem a presença dos pais , pois assim eles ficam menos manhosos ou rebeldes , a tenta ao máximo passar com confiança a mensagem d q ela está ali para fazer o melhor por ele (a)… e na maioria das vezes o resultado é um tratamento finalizado com a criança sem traumas e com confiança na profissional … sem mais … agradeço pelas dicas expressas nesse site … adoro as dicas e ideias q vejo aqui … abraço

  9. As pessoas que aqui discordam da técnica de contenção tem todo o direito, mas deveriam também ter o dever de não ter deixado os filhos terem cárie na primeira infância. Ou poderiam ter melhor preparado psicologicamente os filhos para esta situação. Sim, isto também é dever dos pais.
    Em casos de urgência, intervenções precisam ser realizadas, para o bem e saúde da própria criança.
    Quanto a discordar de um especialista que estuda muito mais que os ditos 5 anos (um bom profissional nunca para de estudar), acho um pouco de soberba, pois não sabe o tipo de casos delicados que um profissional precisa atender. Detalhe: sem anestesia geral, onde o risco é muito maior, mas este recurso é absurdamente usado para cirurgias menores que as realizadas em um consultório odontológico. Mas poderiam ser evitadas, se os médicos oferecessem ou tivessem outras alternativas.
    A psicologia é usada em todos estes casos mães, basta procurar um bom profissional e não generalizar.
    Contenção e limite é o que fazemos para bem educar nosso filhos desde a tenra idade, justamente para que cresçam cidadãos conscientes dos seus direitos e deveres.

    Todas as crianças contidas para as inúmeras vacinas ou exames de sangue refletirão algum trauma? Ou deixaremos sem vacinar? Uma comparação simplista, mas que pode ser feita entre inúmeras outras.
    Enfatizo: profissionais mal informados ou mal formados existem em todas as profissões, da mesma forma que pais e mães.

    Parabéns pelo canal aberto e pelo site Gustavo.

    • Eduardo,

      Obrigado por seu depoimento. Seu ponto de vista é bem interessante! De fato, temos que pensar no bem estar e na saúde da criança acima de tudo. Sua comparação com exames e vacinas foi perfeita!

      Bem vindo ao blog sempre!

  10. Boa tarde!! Gostei muito da comparacao das vacinas e cirurgias medicas. Voces que sao pais, quando seus filhos precisam tirar sangue ou tomar vacinas, voces nao seguram seus filhos… voces tomam seus filhos das maos do medico ou enfermeiro e dizem que seus filhos nao serao vacinados e nem tirar sangue porque vao ficar com trauma… voces acham um absurdo profissionais que estudaram para isso e fazerem isso com seus flhos… no consultorio odontologico é a mesma coisa. Quando seu filho de 2 anos de idade precisa tomar uma anestesia, voce acha que eles vao ficar quietos… eles nao ficam quietos para tirar sangue, ou dar ponto no corpo ou tomar vacina… voces acham que vao ficar traumatizados para sempre… acho isso muito estranho, sinceramente… quando seguramos ou imobilizamos a crianca é para protege-la, da mesma maneira que no hospital o medico faz… E o importante é após o procedimento, os pais retornarem com a crianca no consultorio para a prevencao de 2 em 2 meses, ou de 3 em 3… de acordo com a necessidade da crianca… com certeza a crianca vai acostumar e gostar de ir ao dentista…

  11. Eu estou muito frustrada pois meu filho tem dois aninhos e precisou de odontopediatra na primeira consulta ele colaborou mas na segunda não e o profissional gritou com ele como se tivesse gritando com um marginal fiquei apavorada estou desesperada não sei oq fazer…

    • Olá, mamãe Julcineia!

      De fato, é preciso ter muita paciência para cuidar de crianças bem novinhas. Entretanto, dependendo da situação, o dentista precisa se impor para que a situação não fuja do controle. É claro que tudo deve ser conversado antes com os pais e feito firmeza, mas sem agressividade ou rispidez demais. Converse com o profissional e, se achar necessário, procure alguém de sua inteira confiança.

      Obrigado pela visita e seja sempre bem vinda!

      • Ok obrigada pela atenção, mas vc acha q do geito q foi feito pode traumatizar meu filho pois procurei um especialista nessa área justamente p não ter problemas no futuro… pois trabalho com dentistas e sei o quanto um primeiro contato pode marcar a vida p sempre.

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